
Passou tanto tempo entre as primaveras da minha vida que não sei mais o q é ter sol no rosto... Ele me acaricia e esquenta por dentro, mas tudo o que consigo me lembrar é do câncer que ele pode produzir na minha pele. O sol ... A vida... Senti minha alma enrugar tantas vezes durante esse longo inverno! Inverno mais real do que a própria realidade. Eu a queria assim, fria, dura, sem disfarce, pra que não doesse acordar sem as cobertas no meio da noite. Agora temo o calor do sol, por muito habituada à rudeza da solidão fria e palpável. Cada momento se torna uma angustiante escolha: arrisco abrir de novo as janelas da minha alma, empenadas, emperradas, carcomidas, ou deixo estar meu coração entre os mofos úmidos das paredes sólidas e intransponíveis que tive tanto trabalho pra erguer? Escolho entre o não sofrer e não saber. Não saber me tira o sono, me causa pânico, me faz brotar fantasias loucas de um futuro sombrio. Mas não sofrer me priva do calor do sol no rosto, que tanto adoro, me arranca o sabor da vida, faz enrugar mais ainda minha alma. Viver um momento de cada vez. Sorver cada gota de sol que minha mente permitir. Eis o q me digo sempre que o gume afiado da dúvida me divide o peito, resistindo a cada investida. Espero ter forças para merecer e conservar o sol que por hora me banha. Mais ainda: espero um dia tornar-me meu próprio sol invictus! Mas... um dia de cada vez.
